Na edição do JN de 26/03/2010, vinha publicada uma notícia em que o Exm.º Senhor Procurador-Geral da República, em resposta à observação de um advogado que o aconselhava a demitir-se por não ter aberto um inquérito ao Exmº Senhor Primeiro Ministro, referiu o seguinte: “Quem nasce na beira, entre o granito e a neve, não desiste de nada”.
Só admito que o Exmº Senhor Procurador-Geral da República tenha feito essa referência em tom de gracejo. É que, de outro modo, tal referência não tem o mínimo sentido. Eu, os meus pais, os meus avós, os meus bisavós, os meus trisavós e até não sei quantas gerações, nascemos a duas horas, a pé e a subir, e a quarenta e cinco minutos a descer, do ponto mais alto da Serra da Estrela, e todos teremos desistido exactamente das mesmas coisas que os nascidos nos outros sítios.
Aliás, a ser como diz o Exmº Senhor Procurador-Geral da República, estaria descoberta a maneira de “fabricar” indivíduos que não desistissem de nada: bastaria que as mães os fossem ter, por exemplo, ao Centro Hospitalar da Cova da Beira, ao Hospital Distrital da Guarda ou o Hospital de Seia, e que, no dia e na terra do parto, existisse neve. Em qualquer das terras onde se localizam esses hospitais, o granito abunda. O mais difícil seria fazer coincidir o parto com a neve (desde que não fosse artificial). É que, mesmo em terras localizadas a cerca de mil metros de altitude (como é o caso da Guarda), só existe neve meia dúzia de dias por ano, se tanto, e, em Portugal, nos sítios onde mais neva não há hospitais.
Se o Exmº Senhor Procurador-Geral da República dissesse que “Quem nasce na beira, entre o granito e a neve” fala “achim”, seria muito mais exacto. Na verdade, uns “menoj” outros “maje”, nós, os beirões, falamos “achim”.