sábado, 21 de janeiro de 2012

Sérgio Sousa



Sobre a data em que foi tirada esta fotografia, decorreram, num instante, 30 anos. Entre muitos franceses, encontram-se dois portugueses: eu e o Sérgio Sousa. Nunca mais o vi desde que, numa manhã gélida de Outubro, me despedi dele na estação de caminhos-de-ferro de Sierre, na Suíça. Ele tinha decidido voltar a Portugal para continuar os estudos. Conheci-o algures na Suíça, sentado à porta de um restaurante onde eu nesse dia fui almoçar. Comi, pela primeira e única vez, caracóis, porque era o prato mais barato que constava na ementa, e não me apercebi do que estava a pedir. Estávamos em Julho. Dei-lhe o endereço do meu primo Zé Manuel, que, em Setembro, tinha ficado de me arranjar trabalho nas vindimas, em França. Em princípios de Setembro, estava em “tournée” por Montbéliard, com o Vasco e com o José António (dois músicos que conheci em Geneve no dia de folga do meu trabalho, na restauração, como “Garçon”), liguei para o meu primo a perguntar quando começavam as vindimas, e, para minha surpresa, disse-me que já estava lá em casa dele o meu amigo Sérgio. Como é óbvio, nessa altura eu já mal me lembrava do Sérgio. Por seu turno, o Sérgio tinha lá aparecido como derradeira oportunidade para ter um prato de comida e um local para dormir que não fossem estações de caminho-de-ferro encerradas, pois nunca acreditara verdadeiramente que alguém que acabara de conhecer lhe desse assim uma morada que realmente existisse, e em que foi acolhido da forma que o foi. As vindimas na França acabaram, e partimos para a Suíça, onde as vindimas começavam um pouco mais tarde. O Sérgio dizia-me que o dono de uma cooperativa vinícola, em Agosto do ano anterior, lhe tinha dito que era capaz de lhe arranjar trabalho nas vindimas, em finais de Setembro. No dizer do Sérgio, ele não se lembraria que essa promessa tinha sido feita no ano anterior, e, dessa forma, com alguma sorte, poderíamos arranjar trabalho. Depois de uns dois dias à boleia, chegámos a Sierre num domingo à noite. Dirigimo-nos de imediato à casa do dono da cooperativa. Atendeu-nos a empregada, uma porto-riquenha cheia de simpatia e graciosidade. Dissemos-lhe que éramos dois vindimadores profissionais de alto gabarito, e que tínhamos vindo de propósito de França para cumprirmos a nossa função. Mas a porto-riquenha respondeu-nos que o patrão estava a descansar, e que por nada deste mundo o acordaria. Enquanto eu falava com ela, o Sérgio foi subindo pelas caleiras do prédio até ao primeiro andar, e espreitou para uma divisão que tinha uma luz acesa.
- “O gajo está a dormir debaixo do colchão”, disse-me o Sérgio, que ainda não conhecia os edredons (nem ele, nem eu).
Vendo o nosso desalento, a simpática da porto-riquenha disse-nos para irmos dormir ao hotel e para voltarmos no dia seguinte. Respondemos-lhe que não tínhamos dinheiro para dormir no hotel, e ela, sem lhe pedirmos nada, deu-nos 40 francos a cada um. Naquela altura um franco Suíço valia cerca de 40$00, e o salário mínimo nacional em Portugal andaria pelos 11.000$00. Ficámos felizes da vida. Nessa noite dormimos num hotel, mas clandestinos. Um cozinheiro, que era português e amigo do Sérgio, o Joel, arranjou maneira de nos juntar a mais três portugueses que, igualmente de forma clandestina, dormiam no quarto dele.
No dia seguinte, bem cedo, esperámos pela chegada do patrão da cooperativa no seu local de trabalho. Não é que ele disse ao Sérgio que não o conhecia de lado nenhum?! Que antipatia e falta de hospitalidade.
Bem, toda esta conversa para dizer que eu gostaria de encontrar o Sérgio Sousa, que, há 30 anos, andava no 2º ano de engenharia mecânica, em Lisboa, e dizia-me que o pai tinha um programa na rádio que se chamava “Ginástica Pausa”(!?). Pode ser que, tropeçando neste post, se identifique na foto. É como encontrar agulha num palheiro, mas nunca se sabe. Permitam-me uma pergunta: onde estão, na foto, os 2 portugueses?

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Se soubessemos o que sabemos hoje, quem é que não teria vontade de ir para a Holanda?

Na política partidária portuguesa já nada, mas mesmo nada, me surpreende. Então não é que até o PS quer tirar dividendos políticos do caso “Jerónimo Martins”, a ponto de pretender que esse assunto seja discutido em sede parlamentar!? Se o discurso for técnico e rigoroso – o que, desde logo, implicará que os parlamentares que se pronunciarem sobre esse caso tenham um domínio mínimo sobre conceitos jurídico-fiscais (sabendo distinguir, por exemplo, a dupla tributação económica da dupla tributação jurídica, e a duplicação tributação da duplicação da colecta) e sobre o regime jurídico da SGPS – o PS não irá tirar quaisquer dividendos, bem pelo contrário. Porém, a crer na amostra que hoje foi dada pelas intervenções dos nossos parlamentares sobre o assunto (de onde decorria uma completa ignorância sobre os regimes jurídicos cuja alteração reivindicam, e, inclusive, sobre uma regra básica de direito comunitário: a da livre circulação de bens, pessoas, serviços e capitais), não auguro qualquer debate esclarecido e, muito menos, esclarecedor.
A onda de indignação popular contra o “Grupo Jerónimo Martins” é verdadeiramente lamentável. O marketing da política partidária é de tal forma que o Povo, em lugar de procurar a causa, só pensa no efeito. Em vez de criticar o facto de o legislador português, graças a uma má e instável legislação que foi criando, ter forçado os grupos económicos a rumarem a outros países, critica esses grupos por os seus gestores cumprirem cabalmente o escopo legal das sociedades que gerem, ou seja, o de obterem a melhor remuneração possível do capital investido para os seus accionistas, remuneração essa que se encontra dependente, entre outros factores, do valor da tributação dos ganhos.Porque é que muitos dos senhores que, ocupando cargos políticos, passam a vida a hostilizar tudo quanto sejam empresas privadas, não propõem que as subvenções estatais e os donativos aos partidos políticos sejam tributados? Porque é que não propõem a tributação dos subsídios concedidos a todos os que ocupam cargos políticos? É óbvio que isso é uma hipótese meramente académica. Tanto como a de que, com o quadro partidário actual, alguma vez ganhe corpo de lei a incompatibilidade entre o exercício da advocacia e o cargo de deputado.Sejamos francos, se soubéssemos antecipadamente como os nossos governantes deixariam o Estado português, quem é que não teria vontade (pelo menos) de ir para a Holanda?

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Os cuidados que devemos ter com os "Opinadores"

Acho que um dos maiores riscos do direito de opinião política, mesmo quando ele é exercido dentro dos limites legais, é poder causar o caos nas mentes, a ponto de, v.g., ninguém acreditar que outrem é capaz de fazer o que quer que seja em favor do bem comum. A força da opinião deveria estar na sua veracidade. Mas, em vez disso, não raras vezes, está mais na personalidade de quem a emite e no sensacionalismo da mesma. Em tempos de prosperidade (seja ela económica, política ou social), a actividade de opinar é bastante difícil, e só conseguem exercê-la os realmente competentes. Pelo contrário, em tempos de crise, os “opinadores” profissionais surgem como cogumelos, e, parecendo temer-se uns aos outros, opinam todos na mesma direcção. Por exemplo, se escolhem um ministro como alvo das suas opiniões negativas, transmitem dele uma ideia tão má que, mesmo os cidadãos medianamente informados, são capazes de jurar ter provas de que uma determinada pessoa é incompetente, e só dão conta do erro em que incorrem quando lhes perguntamos pelos factos que pretendem demonstrar com essas alegadas provas (é que dizer que alguém é incompetente não é um facto mas uma conclusão). Toda esta prosa para dizer que os “opinadores” profissionais escolheram, desta feita, como alvo o Ministro da Economia, Álvaro Santos Pereira. Tudo serve para o vexar e, alegadamente, demonstrar a sua incompetência, incluindo, pasme-se, o facto de ele, antes de ser ministro, ser docente numa universidade canadiana. Posto isto, acho que uma das formas de fazer com que os ditos dos“opinadores” entrem nas nossas mentes seria inserir nelas a seguinte palavra passe, para aceitação de uma opinião como válida: “onde estão os factos e a prova dos mesmos?”. Se, após a opinião ter sido testada por esta palavra passe não restar nada (isto é, nem um facto, nem uma prova), a opinião nem sequer entra na mente. É que, se assim não for, em lugar de ver programas televisivos ditos de opinião, será mais saudável ver outro tipo de programas (como, por exemplo, "o Peso Pesado").
Por exemplo, enquanto escrevo este post, só porque tenho o comando da TV demasiado longe, vou ouvindo o Fernando Rosas e o Pedro Santana Lopes a tentarem falar sobre o caso “Jerónimo Martins”. Estou convicto de que nenhum percebeu o que está em questão, e muito menos no seu aspecto técnico. Pergunto a mim mesmo: porque é que, antes de irem para a TV, não se inteiraram devidamente da matéria de que iriam falar?! O Fernando Rosas garante que, no caso, há uma "fuga ao fisco". Não o vi foi assentar essa conclusão em qualquer facto. Aliás, fiquei convicto de que ele não conhece sequer o regime fiscal das SGPS.
Temos, pois, de ter muito cuidado com os "opinadores".