quinta-feira, 28 de julho de 2011

Vereador

As lojas do meu quintal fecham às 23 horas. Só à sexta-feira e ao sábado é que uma dessas lojas, a dos livros, fecha às 24 horas. A partir daí, só restam os bares. Mas eu não gosto de bares nocturnos. Naquele dia, quando as lojas já estavam fechadas, passei por um edifício que tinha uma exposição de cartoons. Depois de ver e rever essas obras, ocorreu-me perguntar o que se passava no andar de cima a uma hora daquelas. É a reunião da assembleia municipal, e, como é extraordinária, o ponto em discussão vai ter de terminar hoje, diz-me o porteiro.
E, pela primeira vez, assisti a uma reunião de uma assembleia municipal. De imediato percebi que dois vereadores (na casa dos trinta anos) que integravam as listas dos partidos que formaram a coligação que ganhara as últimas eleições tinham decidido opor-se às posições assumidas pelo presidente da autarquia e pelos vereadores dessa coligação. Um desses vereadores, alegando repetidamente ser jurista e falar com professores catedráticos de direito (cujos nomes não referiu), rebatia os argumentos de um parecer jurídico pedido pela autarquia a propósito do assunto em discussão, invocando que ele, que era jurista, nunca tinha feito um parecer jurídico baseado em suposições. Pensava eu cá para os meus botões: uma frase destas dita por um aluno de economia, num exame de uma disciplina de direito, seria bastante para que o professor percebesse que ele não tinha uma noção correcta do que era um parecer jurídico (com as legais consequências!!!). Depois, o referido vereador qualificava de tentativa de “fraude à lei” um contrato que a autarquia pretendia fazer com um clube desportivo. Pareceu-me até que o vereador estava a qualificar como “fraude à lei” (comportamentos consubstanciados em contornar a lei sem expressamente a infringirem) uma violação frontal e ostensiva da lei.
Num intervalo dos trabalhos, um deputado do mesmo partido do referido vereador, na casa dos 70 anos, dirigiu-lhe umas palavras que não consegui perceber. O que percebi foi a resposta do vereador: “Você esteja caladinho. Se não fosse eu, você não estava aí sentado. Você não respeita a memória do partido”.
Passados alguns minutos, chegaram dois agentes da autoridade. Teria sido o dito vereador a pedir a sua presença, para o acompanharem até ao carro, eventualmente por pensar que alguém estaria de tal modo importado com as suas atitudes, que até poderia partir para a agressão? Se assim fosse, o vereador estaria equivocado. Tirando o dito colega de partido, não vi que ninguém ligasse muito ao que o vereador dizia.
No entanto, este é um bom exemplo do falhanço de um partido político na elaboração das listas de candidatos a eleições. Sabendo os partidos que os eleitores fundamentalmente não votam em pessoas, mas em partidos, deveriam ter muito mais cuidado com as pessoas que escolhem para integrar as listas de candidatos a eleições. Assim não acontecendo, passam por estes “amargos de boca”, e, como sempre, o Povo é que se lixa.

sábado, 16 de julho de 2011

Requisito essencial para exercer o cargo de Ministro das Finanças: ter uma paciência colossal

Dois dias antes de se saber quem seria o Ministro das Finanças do actual Governo, tinha preparado um post (que “ficou em carteira”) com o seguinte teor:

Estou convicto de que a pessoa que irá ocupar o cargo de Ministro das Finanças é um professor universitário (catedrático), sério, honesto e competentíssimo na área das finanças. Para além disso, é endinheirado o bastante para não ver a realidade distorcida por interesses mesquinhos e egoísticos. Não sendo uma pessoa conhecida dos jornalistas, a primeira crítica que a imprensa lhe irá fazer é a de ele ser uma pessoa pouco conhecida (da imprensa, como é óbvio, porque não tem nem nunca teve uma secretária virada para a rua). O certo é que ele irá compor as nossas finanças públicas, e, dessa forma, evitar que sigamos o caminho da Grécia. E isso é que importa.”

Mas o escolhido não foi quem eu pensava, o que, no princípio, me deixou um pouco desgostoso. No entanto, depois de ter ficado extremamente bem impressionado com a forma como ele explicou o imposto extraordinário (v.g., com o rigor conceitual utilizado no seu discurso), e muito mal impressionado com os comentários dos deputados da oposição e de muitos jornalistas (que desataram a criticar aquilo que parecem não ter entendido, resultando de muitos desses comentários que quem os faz não tem preparação técnica para os fazer, ou sequer humildade bastante para, reconhecendo esse facto, se abster de os fazer), fiquei satisfeito por a escolha não ter recaído sobre a pessoa que eu estava convicto de que seria a escolhida para ocupar o cargo de ministro das finanças. É que se essa pessoa explicasse (como explicou o Ministro das Finanças) as razões do lançamento do imposto extraordinário de forma de tal maneira clara (indo ao ponto de até distribuir aos jornalistas umas folhinhas, ao jeito de apontamentos, com exemplos e tudo) que qualquer pessoa com o 9º ano de escolaridade terá percebido, perante os comentários de alguns deputados da oposição, já ontem teria apresentado a sua demissão. Não há dúvida: para um Ministro das Finanças que não deixe que a componente técnica do cargo seja postergada pela componente política, só uma paciência colossal lhe permitirá suportar a ignorância e/ou má fé de muitos comentadores com responsabilidades políticas. Ter uma paciência colossal é, pois, um requisito essencial para exercer o cargo de Ministro das Finanças. Ora, era precisamente esse requisito que faltava à pessoa que eu pensava que iria exercer o cargo. Por isso, e sob pena de já hoje termos uma crise política, ainda bem que me enganei.

quinta-feira, 14 de julho de 2011

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Carta com notícias do ano que passou

Reli os sms que trocámos, até ao último que me mandou (“S juntar as qualidades dos 2 e as d mãe e fica imbatível"! Bj aos 4”. Lembra-se?). Dizem que o humor e a força de vontade do doente o ajudam a vencer a doença. Não sei se será assim. O que sei é que ajudam quem está próximo do doente. Lá isso ajudam! Também por isso lhe agradecemos. Vou dar-lhe notícias do ano que passou. O menino está a estudar muito. Lembra-se como eu era chato quando tinha de estudar? O menino agora está igualzinho. Não quer conversa com ninguém quando está a estudar. Tal como me disse na última vez que falámos, “o /…/ está bem”. O patrão também está cada vez mais novo. Parece que, para ele, os anos até contam ao contrário, a ponto de já parecer mais novo do que eu, que nasci 11 anos depois dele. As meninas continuam na fase de só falarem de rapazes (eu gostava mais que falassem de raparigas, até para poder dar a minha opinião). A mais velha vai ganhar a próxima regata em que participar, só para me fazer recordar aquela que ganhou e eu lhe relatei em directo. Lembra-se? Isto, apesar de não estar em forma. E, quanto à mais nova, vamos ver se os resultados dos exames não vão servir de fundamento para ela me dizer que estou errado quando lhe digo que as pessoas são sempre recompensadas pelo seu trabalho. Quanto aos assuntos fora de portas, os políticos dizem que Portugal está à beira da bancarrota, a corrupção continua em bom ritmo e mudámos de governo. Mas, deixando-me de banalidades, dou-lhe conta de que abriram à minha porta mais dois cafés. Um deles (de que tenho a certeza que iria gostar) tem uma pintura do Zeca Afonso que me faz lembrar uma que estava no “1900”, em Coimbra. Nessa foto estava também o Adriano, com a barba à “Zé Povinho”. Um dia ouvi caloiros na mesa de trás interrogarem-se acerca de quem seria o fulano que estava ao lado do “Zé Povinho”. Pronto, agora que já matei saudades, volto para o trabalho.