sábado, 26 de junho de 2010

Nasci – Logo a Meus Pais Custou Dinheiro…

Filinto Elísio (pseudónimo de Francisco Manuel do Nascimento, 1734-1819, que foi padre sem vocação e um dos mais importantes poetas do Neoclassicismo português) escreveu este poema, que Luís Cilia adaptou e musicou (se querem ouvir o resto, procurem o vinil porque não foi editado em CD), pleno de actualidade:
Nasci - logo a meus pais custou dinheiro
o baptismo, que Deus nos dá de graça.
Tive uso de razão - perdi a graça -
dei-me ao rol - chegou a Páscoa - dei dinheiro.
Quis casar com uma moça - mais dinheiro.
Brinquei com ela - não brinquei de graça:
que aos nove meses me custou a graça
para o Mergulhador capa e dinheiro.
Morreu minha mulher - não lhe achei graça
e menos graça no arbitral dinheiro
da oferta; que o prior não vai de graça.
Se o ser cristão requer sempre dinheiro,
como cumprem com dar graças de graça
os que as graças nos vendem por dinheiro?



terça-feira, 22 de junho de 2010

PATXI ANDIÓN- COMPAÑERA

Para ti e para a Tua Companheira. Queria tanto voltar a vê-la! Queria voltar a jogar com ela ao "burro esperto", ainda que fosse como da última vez.


quinta-feira, 10 de junho de 2010

Famel

Quero uma mota, dizia ela.
Eu dou-te a minha, respondia eu.
Não quero, os meus colegas iriam fazer troça de mim, retorquía ela.
Mas quem é que poderá fazer troça de uma preciosidade destas?! pergunto eu.

sábado, 29 de maio de 2010

Um verdadeiro animal feroz


Quando o encontrámos era tão pequenino e estava tão mal nutrido que nunca pensámos que sobrevivesse. Tempos depois, graças aos bons tratos e à companhia, estava transformado num verdadeiro animal feroz.

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Alerta: o IRS não é um imposto de formação sucessiva!

 
Em recente entrevista ao «Correio da Manhã», o Exmº Senhor Bastonário da Ordem dos Técnicos Oficiais de Contas (OTOC) referiu designadamente o seguinte: «Ora bem. O IRS é um imposto de formação sucessiva. Isto é, abre o ciclo no dia 1 de Janeiro e fecha-se este ciclo no dia 31 de Dezembro. E é no termo do ciclo que o cidadão vai às finanças fazer o seu enquadramento fiscal com o quadro em vigor em 31 de Dezembro». (o negrito e o sublinhado são nossos)
Costuma-se dizer que quando um aluno diz uma asneira, é mesmo uma asneira. Se o mesmo que o aluno diz for dito por um licenciado, já é uma opinião. E se a mesmíssima coisa for dita por um doutorado, então já se trata de uma douta opinião.
Segundo essa teoria, a razão de ciência do autor confere automática e potestativa correcção a tudo a todas as suas afirmações.
Como é óbvio, isto é um erro. Uma asneira tem a mesma natureza, seja ela dita por um aluno ou por um professor catedrático. Já o significado e as repercussões dessa asneira serão tanto maiores quanto maior for a autoridade de quem a tenha proferido.
Ora, ao referir que «o IRS é um imposto de formação sucessiva», o Exmº Senhor Bastonário da OTOC cometeu um erro, com o significado e alcance que decorrem das competências e atribuições inerentes ao cargo que ocupa.
Como é bom de ver, não é o IRS (ou qualquer outro imposto periódico) que é de formação sucessiva, mas sim o facto tributário desse imposto. Isto, a não ser que o Exmº Senhor Bastonário da OTOC tivesse pretendido significar que o IRS, por tantas vezes já ter sido alterado desde que entrou em vigor, é de formação sucessiva. Só que, se o critério fosse esse, então todos os impostos, uns mais outros menos, seriam de formação sucessiva (!!!).
Estamos certos de que se tratou de um lapso, o qual só tem significado por ter sido cometido por quem foi, e por ter sido bastante divulgado pela imprensa.
É que se tivesse sido um aluno a dizer que «o IRS é um imposto de formação sucessiva», seria desculpado, v.g., pela falta de estudo e por estar a aprender; se tivesse sido um recém-licenciado, a desculpa de Bolonha serviria às mil maravilhas. Agora sendo o Exmº Senhor Bastonário da OTOC a dizer o que disse, os efeitos de tal erro são muito mais gravosos, pois corremos até o risco de quem o tenha ouvido passar também a dizer que «o IRS é um imposto de formação sucessiva», fiado na autoridade e na ciência do Exmº Senhor Bastonário da OTOC.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Poderão os vencimentos dos funcionários públicos ser reduzidos?

António, operário reformado, e Belmiro, professor do ensino básico aposentado, tinham sido colegas na Escola Primária e, desde há dois meses, por mero acaso, encontraram-se num jardim da cidade onde viviam. Começaram os dois a ser parceiros no jogo da sueca que, todos os dias, depois de almoço, se jogava numa mesa desse jardim. António é um ouvinte assíduo da “SIC Notícias”, e Belmiro só gosta da imprensa escrita. Naquele dia soalheiro, a sorte não esteve do lado deles nos primeiros quatro jogos, não conseguiram “livrar” em nenhum deles. A notícia do dia era o aumento dos impostos, e as repercussões que esse aumento iria ter nas suas reformas. O mais preocupado era Belmiro. Segundo ele, no fim do ano iria pagar mais cerca de 1.500 euros. A conversa começou por aí, mas levou-os até datas distantes. A lembrava-se de que, em 1972, ganhava, como Chefe de Secção de uma fábrica de lanifícios, 3.000$00. Nessa altura, dizia Belmiro, eu ganhava só 2.100$00. Ao ouvir isto, António perguntou a Belmiro: então se tu ganhavas tão pouco, como é que, tendo eu 40 anos de descontos e tu 35, tens uma reforma de 1.500 euros e eu tenho uma reforma de 700? Belmiro respondeu-lhe que tinha tido mais descontos. António retorquiu que não podia ser, pois, até ao 25 de Abril, ganhara sempre muito mais do que Belmiro, e por isso descontara mais. B acabou por concordar, dizendo que, antes do 25 de Abril, ser funcionário público era “meio sustento”: – O facto de sermos servidores do Estado dava-nos uma distinção tão grande que nós nem pensávamos se o que ganhávamos era muito ou era pouco. Era aquilo, e pronto. E chegava para tudo!
– Mas olha que eu não acho que haja funcionários a mais – dizia António, – Seja qual for o serviço do Estado onde a gente vá, os funcionários não têm mãos a medir.
Bem, então a solução não pode passar por despedir funcionários, concordaram os dois.
– Mas, se não há dinheiro para pagar a tantos funcionários públicos, como vamos fazer? – Perguntava António.
– Só há uma solução – respondeu Belmiro: é reduzir os ordenados deles.
– Mas, se se reduzem os ordenados dos funcionários públicos, que são os que têm mais poder de compra em termos médios, como é que se vão safar os das lojas? – Perguntou António.
A pergunta ficou sem resposta. Chegara a altura de eles voltarem a jogo.
A grande questão é, pois, essa mesma: terão os vencimentos dos funcionários públicos de ser reduzidos? E depois, quem é que compra?

quinta-feira, 20 de maio de 2010

O gato da cântara

Era dia de festa numa pequena aldeia da Beira Baixa. O momento alto seria, à noite, a actuação do Rancho Folclórico da Casa do Povo de US. Quando chegámos, vimos um pau espetado na vertical, com uns 6 ou 7 metros de altura, forrado a giestas secas. No cimo desse pau, estava atada uma cântara de barro. Já todos tínhamos visto o jogo do pau ensebado com o brinde (geralmente um presunto ou um garrafão de vinho), e todos sabíamos como funcionava esse jogo. Agora assim, nunca tínhamos visto. Pergunta/resposta aqui e pergunta/resposta ali, apurámos que o propósito daquele artefacto era o seguinte: dentro da cântara estava um gato e, à meia-noite desse dia, seria deitado fogo às giestas que estavam na base do pau e que iriam queimando as outras até ao cimo do pau, onde estava a cântara. Quando as chamas queimassem a corda que a prendia ao pau, ela soltar-se-ia e cairia no chão. Ai cair o gato sairia dela e ficaria à solta. Quem o conseguisse apanhar ganhava 500 escudos.

Durante a tarde, foram sendo discutidas estratégias para apanhar o gato. Uma delas passava por atar os lenços das raparigas do rancho uns aos outros, para apanhar a cântara antes de a mesma se estilhaçar no chão. É que, se o gato saísse da cântara, haveria muito poucas hipóteses de o apanhar. A pressa do gato seria muita e o local estava rodeado de mato e de pinheiros.

Porém, por volta das 09-10 horas da noite, quando o rancho se preparava para actuar, começou uma tal sessão de pancadaria que a festa ficou mesmo por ali.

Nunca mais tive notícias do gato. Nem da festa!