Embora de tribunais pouco mais soubesse do que o que vira nos filmes americanos, o advogado-estagiário apresentava-se na sala de audiência como alguns catedráticos se apresentam na sala de aulas perante os caloiros. Estava absolutamente convencido de que quem ele defendesse nunca seria condenado, tal julgava ser o seu saber e domínio das artes forenses. Achava que o facto de ter sido um dos melhores alunos dos melhores mestres que o Direito conhecia fazia com que todos os operadores judiciários humildemente se curvassem perante o que julgava ser a sua vastíssima sapientia.
Contribuindo para o reforço dessa ilusão, as coisas iam-lhe correndo como ele achava que tinham de correr. De peito cheio pelas consecutivas absolvições, o advogado-estagiário todos os dias caminhava para o tribunal ciente de que nunca perderia uma causa. Porém, o dia fatal chegou, e de forma totalmente inesperada. O dia até começara bem. Tinha sido nomeado defensor oficioso de uma peixeira que, por não ter apresentado o bilhete ao revisor do autocarro, vinha acusada de burla em transportes públicos. A arguida garantia ao juiz que tinha bilhete, e que o revisor é que não lhe tinha dado tempo bastante para ela o encontrar. Para prova dessa sua alegação, ia despejando, às mãos cheias, dezenas e dezenas de bilhetes em cima da secretária do juiz, e garantia que o bilhete da viagem em questão estava ali no meio de tantos outros. Depois de a única testemunha arrolada (o revisor do autocarro) ter confirmado o corpo da acusação, o juiz pediu-lhe para verificar se, entre aquelas dezenas e dezenas de bilhetes, encontrava algum com a data da referida viagem. Foi com um certo embargo na voz que a testemunha, depois de verificar alguns daqueles bilhetes, sussurrou:
“– Está aqui um bilhete desse dia, Sr. Dr. Juiz”.
Ao que arguida logo exclamou:
“– Eu não disse, Sr. Dr.?!”
Recuperando do efeito de surpresa, a testemunha perguntou ao juiz:
“– Sr. Dr., como é que eu sei que este bilhete não pertence a outra pessoa?”
Ao que juiz respondeu:
“– Não sabe o senhor nem sabe o tribunal, e por isso tenho de absolver a arguida”.
Estava ainda o advogado-estagiário a pavonear-se no átrio do tribunal quando um funcionário lhe pediu se poderia intervir como defensor oficioso num outro julgamento, que se iria realizar logo a seguir, e em que o arguido vinha acusado da prática de vários furtos em residências. O advogado-estagiário, inchado por mais uma vitória e acreditando pia e ingenuamente que lograria a absolvição de todos quantos defendesse, logo respondeu ao funcionário que teria de falar com o arguido, e que, no início do julgamento, sempre iria pedir prazo para consultar o processo.
Só que, quando falou com o arguido para lhe preparar a defesa, este disse-lhe o seguinte:
“– Deixemos a conversa, porque eu quero ser preso; só tenho mesmo de ir para a cadeia de…, pois é lá que estão todos os meus amigos!”.
Ora cá está um caso parecido com o do filme “Nuts”, com Barbra Streisand, pensou o advogado-estagiário. Sentou-se então nas escadas do tribunal, à procura do artigo que lhe permitisse requerer uma perícia às faculdades mentais do arguido. Lá o encontrou e, aberta a sessão de julgamento, requereu a dita perícia, invocando como único fundamento o facto de o arguido lhe ter dito que queria ser preso, mas que tinha de ir para uma determinada cadeia onde estariam os seus amigos. A perícia foi deferida, e o resultado, ainda assim, foi o de que o arguido era imputável, para surpresa de todos, inclusive do próprio juiz que presidia ao colectivo, que, atento o desacerto das respostas do arguido, ia lamentando que a perícia não fosse feita durante a própria audiência de julgamento.
Em conclusão: o arguido foi condenado pelos furtos de que vinha acusado (e que confessou, tal como confessou muitos outros que nem sequer constavam da acusação), em pena de prisão, que o juiz, para desgosto do mesmo arguido, suspendeu por um ano, e o advogado-estagiário perdeu a sua primeira questão.
Mas será que a perdeu mesmo?
Ao contar, lamentando-se, o sucedido ao seu patrono, este lá lhe foi dizendo:
“– Há sempre uma primeira vez em que as coisa não correm como queremos. Mas deixa lá, continuas sem perder nenhuma causa, tal como eu ao cabo de mais de 40 anos de advocacia: quem as perde são os clientes. É ou não é verdade?!”.
Como é óbvio, qualquer semelhança entre este relato e qualquer realidade será mera coincidência.
Mas convenhamos que a da Peixeira foi de mestre.
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