quarta-feira, 30 de março de 2011

Casa da Roda

Na Casa da Roda de Caria (cfr. fotos infra) já não se deixam bebés. Agora serve para dar testemunho dos tempos em que ali eram requeridos, por mães desesperadas e de forma anónima, os cuidados de outros para as crianças deixadas na roda. Mas isso era noutros tempos. Agora já não são as crianças, mas os velhos, quem mais entra na roda. E que roda! Já estou a ver uma roda accionada electronicamente mediante o pagamento, no terminal multibanco nela incorporado, do valor inscrito no respectivo visor, logo após ter por ela ter sido efectuado o cálculo da esperança de vida da pessoa a descartar. E siga a roda.




sábado, 12 de março de 2011

quinta-feira, 3 de março de 2011

Na pele dos largartos

Já ouvi esta "moda" centenas vezes. Quando a comecei a ouvir (interpretada pelo Paco Ibañez) imaginava, na pele dos lagartos, pessoas muito mais velhas do que eu. O tempo passou, e já me consigo ver na pele de um dos lagartos, e, na pele do outro, quem comigo começou a ouvir a cantiga. Não há dúvida: ser lagarto é uma chatice.

sábado, 26 de fevereiro de 2011

Um bom investimento

Naquele domingo, em Genebra, estava tudo a correr-me mesmo bem. Acabara de descobrir um investimento que fazia rentabilizar rapidamente as minhas poupanças: um parquímetro. Por cada moeda de 10 cêntimos que nele introduzia, bastava carregar na tecla verde para ver os resultados do investimento: entre 1 e 2 francos. Não tinham ainda passado 5 minutos desde que eu começara a investir, quando fui arrecadado para dentro de um carro da polícia por dois polícias pouco faladores. Pensava que fosse por causa de esse investimento ser fora do mercado corrente, mas não. Segundo eles, era só para ir dar “un petit tour”. Levaram-me até à porta de um prédio, onde uma velhinha nos esperava. Fui-lhe mostrado pelos dois polícias. Ela olhou para mim e, com a cabeça, fez um sinal de negação, ao mesmo tempo que ia dizendo que nunca me tinha visto. Os polícias mandaram-me seguir o meu caminho. Aí é que a coisa se complicou. Por recear, fundadamente, já não conseguir encontrar o tal parquímetro, reivindiquei, insistentemente, junto dos dois polícias o direito de ser colocado exactamente no mesmo sítio onde me encontrava antes de eles me terem removido. Não consegui fazer valer os meus direitos, nem mesmo depois de dizer aos polícias que, por ser amigo de uns exilados polacos, tinha os mesmos direitos que eles, com excepção do subsídio. Mas eles limitaram-se a responder que eram só umas centenas de metros até ao sítio onde me tinham apanhado. Seriam, de facto, umas centenas de metros. Mas o suficiente para, como eu suspeitava, nunca mais ter dado com o sítio onde estava aquele parquímetro que tão bem sabia rentabilizar os investimentos. Se eu fosse uma pessoa gostasse de brigas, tinha pedido ao Estado em questão uma indemnização fundada em lucros cessantes. Mas fiquei-me. O que lá vai, lá vai.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Um lisboeta hospitaleiro

Acabara de chegar ao centro de uma cidade do Sul de Itália. Apesar de serem 11 horas da noite, ainda estava imenso calor. Sentei-me a descansar num muro qualquer. Perto de mim estavam uns tipos cujo aspecto era só um pouquinho melhor do que o meu. Pela forma como um deles tentava “italianizar” as palavras, fiquei convicto de que seria português. Porém, com receio de ficar em pouco, perguntei-lhe, num italiano ainda mais rasca do que aquele que ele falava, se era espanhol. Respondeu-me que era português e perguntou-me se eu era espanhol. Não cabendo em mim de satisfação com tal achado, disse-lhe que era português e perguntei-lhe de onde ele era. Disse que era de Lisboa e a seguir perguntou-me de onde eu era. Disse-lhe que era das bandas da Serra da Estrela. “Ah, está bem, é que tu falas esquisito”, disse-me ele. Perguntou-me se tinha sítio para dormir e, sem esperar pela resposta, num gesto cheio de hospitalidade, convidou-me a dormir no mesmo sítio onde ele e os seus companheiros costumavam pernoitar. Era uma igreja cuja porta, de tantas vezes ser arrombada, já nunca era fechada à chave. Serviu perfeitamente. Até tive direito a um banco só para mim. No dia seguinte, tivemos de nos levantar às sete e meia da manhã, pois a primeira missa começava às oito. Como era costume quando chegava a uma cidade e não tinha poiso certo, fui à estação de caminhos-de-ferro pedir para me guardarem a “tralha” e a seguir encontrei-me com eles à porta de um dos cemitérios mais movimentados da cidade. Convidaram-me a ajudá-los na sua actividade matinal, que consistia em tirar as flores do cemitério que acabavam de ser colocadas, para, logo de seguida, as venderem a uma das floristas que, por sua vez, as voltava a vender. Ao fim de dois dias despedi-me da malta e continuei o meu caminho, após a habitual troca de contactos. Quis o destino que, cerca de um mês depois, tivesse voltado a encontrar esse lisboeta numa pequena vila da Suiça (Saxon). Tinha vindo para a “apanha da maçã”. Mais uma vez me perguntou se tinha onde ficar. Tendo-lhe eu perguntado se era para ir para outra igreja, ele respondeu-me que isso estava fora de questão, pois a única igreja daquela vila estava ocupada por uns emigrantes da Jugoslávia que tinham muito mau feitio. Mas tinha encontrado uma casa em início de construção, que tinha óptimas condições, até para viver. Apesar de ter sido muito bem recebido por toda a malta e o monte de areia onde dormia (sempre com o pijama vestido, pois claro) ser bastante confortável, três dias depois de ter chegado àquela vila, tendo esgotado o meu curto reportório musical nas suas duas únicas esplanadas, segui o meu caminho. Já lá vão quase 30 anos. Nunca mais encontrei esse hospitaleiro lisboeta.