sábado, 18 de setembro de 2010

A Primeira Vez

  
Embora de tribunais pouco mais soubesse do que o que vira nos filmes americanos, o advogado-estagiário apresentava-se na sala de audiência como alguns catedráticos se apresentam na sala de aulas perante os caloiros. Estava absolutamente convencido de que quem ele defendesse nunca seria condenado, tal julgava ser o seu saber e domínio das artes forenses. Achava que o facto de ter sido um dos melhores alunos dos melhores mestres que o Direito conhecia fazia com que todos os operadores judiciários humildemente se curvassem perante o que julgava ser a sua vastíssima sapientia.
Contribuindo para o reforço dessa ilusão, as coisas iam-lhe correndo como ele achava que tinham de correr. De peito cheio pelas consecutivas absolvições, o advogado-estagiário todos os dias caminhava para o tribunal ciente de que nunca perderia uma causa. Porém, o dia fatal chegou, e de forma totalmente inesperada. O dia até começara bem. Tinha sido nomeado defensor oficioso de uma peixeira que, por não ter apresentado o bilhete ao revisor do autocarro, vinha acusada de burla em transportes públicos. A arguida garantia ao juiz que tinha bilhete, e que o revisor é que não lhe tinha dado tempo bastante para ela o encontrar. Para prova dessa sua alegação, ia despejando, às mãos cheias, dezenas e dezenas de bilhetes em cima da secretária do juiz, e garantia que o bilhete da viagem em questão estava ali no meio de tantos outros. Depois de a única testemunha arrolada (o revisor do autocarro) ter confirmado o corpo da acusação, o juiz pediu-lhe para verificar se, entre aquelas dezenas e dezenas de bilhetes, encontrava algum com a data da referida viagem. Foi com um certo embargo na voz que a testemunha, depois de verificar alguns daqueles bilhetes, sussurrou:
– Está aqui um bilhete desse dia, Sr. Dr. Juiz”.
Ao que arguida logo exclamou:
– Eu não disse, Sr. Dr.?!”
Recuperando do efeito de surpresa, a testemunha perguntou ao juiz:
– Sr. Dr., como é que eu sei que este bilhete não pertence a outra pessoa?
Ao que juiz respondeu:
– Não sabe o senhor nem sabe o tribunal, e por isso tenho de absolver a arguida”.
Estava ainda o advogado-estagiário a pavonear-se no átrio do tribunal quando um funcionário lhe pediu se poderia intervir como defensor oficioso num outro julgamento, que se iria realizar logo a seguir, e em que o arguido vinha acusado da prática de vários furtos em residências. O advogado-estagiário, inchado por mais uma vitória e acreditando pia e ingenuamente que lograria a absolvição de todos quantos defendesse, logo respondeu ao funcionário que teria de falar com o arguido, e que, no início do julgamento, sempre iria pedir prazo para consultar o processo.
Só que, quando falou com o arguido para lhe preparar a defesa, este disse-lhe o seguinte:
– Deixemos a conversa, porque eu quero ser preso; só tenho mesmo de ir para a cadeia de…, pois é lá que estão todos os meus amigos!”.
Ora cá está um caso parecido com o do filme “Nuts”, com Barbra Streisand, pensou o advogado-estagiário. Sentou-se então nas escadas do tribunal, à procura do artigo que lhe permitisse requerer uma perícia às faculdades mentais do arguido. Lá o encontrou e, aberta a sessão de julgamento, requereu a dita perícia, invocando como único fundamento o facto de o arguido lhe ter dito que queria ser preso, mas que tinha de ir para uma determinada cadeia onde estariam os seus amigos. A perícia foi deferida, e o resultado, ainda assim, foi o de que o arguido era imputável, para surpresa de todos, inclusive do próprio juiz que presidia ao colectivo, que, atento o desacerto das respostas do arguido, ia lamentando que a perícia não fosse feita durante a própria audiência de julgamento.
Em conclusão: o arguido foi condenado pelos furtos de que vinha acusado (e que confessou, tal como confessou muitos outros que nem sequer constavam da acusação), em pena de prisão, que o juiz, para desgosto do mesmo arguido, suspendeu por um ano, e o advogado-estagiário perdeu a sua primeira questão.
Mas será que a perdeu mesmo?
Ao contar, lamentando-se, o sucedido ao seu patrono, este lá lhe foi dizendo:
– Há sempre uma primeira vez em que as coisa não correm como queremos. Mas deixa lá, continuas sem perder nenhuma causa, tal como eu ao cabo de mais de 40 anos de advocacia: quem as perde são os clientes. É ou não é verdade?!”.
Como é óbvio, qualquer semelhança entre este relato e qualquer realidade será mera coincidência.

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Praia fluvial na Ribeira de US

Que pena não terem sobrado uns trocos (cerca de 5.000 euros?) para o Futebol Clube Estrela poder ter inscrito a sua equipa de futebol sénior no campeonato distrital da época que agora se vai iniciar.



quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Casatschok

No Verão de 1969, em US, no saudoso parque de festas, o Povo dançava o Casatschok, na versão original. Aqui fica uma versão dessa música.


terça-feira, 27 de julho de 2010

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Um prognóstico certeiro ("nunca de lá trazem a taça")

A terra onde nascemos é o centro do nosso mundo. US é o centro do meu mundo. Por adopção (plena), é também o mundo de pessoas tão distintas como a minha querida amiga Saphou. Ficamos tristes quando outros olham o nosso mundo de determinadas formas.

Do dia 31/05/2010, durante o telejornal de uma estação televisiva, um jornalista começou uma pequena reportagem da seguinte forma:

“/…/num ambiente rural, diferente daquilo a que os jogadores estão habituados, nesta altura os jogadores da selecção nacional colocaram a Serra da Estrela, neste caso Unhais da Serra, na rota da preparação para o campeonato do mundo, porque passaram aqui umas horas, vão continuar a passar /…/. Para já, vamos conferir este ambiente absolutamente insólito em relação àquilo que estamos habituados a ver, perto do hotel onde está instalada a Selecção, normalmente são adeptos de bandeira e cachecol, aqui são três pastores vizinhos deste hotel, que nesta altura estão aqui junto ao hotel onde está a selecção nacional, eu vou falar com eles, muito boa tarde, estamos aqui em directo, antes de mais empreste-me o seu cajado senão vamos aqui pela ribeira a baixo, até à ribeira.”.

Seria até estultícia comentar o cenário primeiramente escolhido para demonstrar o alegado “ambiente rural” e o espírito subjacente a essa pequena reportagem, de tão notórios que eles são. Em todo o caso, temos de dar os parabéns ao último entrevistado (CG), quer pelo seu prognóstico, quer pela sua tirada final:

“Eu acho que eles que nunca de lá trazem a taça”, prognostica o CG.

“Não vai amanhã, não vai amanhã a ver o futebol, depois de amanhã”? Pergunta o jornalista.

“Se você me arranjar o bilhete”, responde o CG.

Brilhante resposta. Para ficar ainda mais “composta”, o CG deveria ainda impor outra condição ao Sr. Jornalista: que este lhe ficasse a guardar o gado enquanto ele ia assistir ao jogo. Tão afeiçoado que ele já estava ao “cajado”, não lhe custaria nada.