A igreja da minha infância era fantástica. Tínhamos dela a imagem que o Padre H1 (que Deus o tenha em bom descanso) nos transmitia. Esse Padre era um engenheiro da alegria e da ajuda. O respeito, veneração e admiração que incutia na criançada era tanto que quando um dia, acompanhado de um outro padre que vivia num seminário próximo, foi à minha sala da 3ª Classe indagar se ali havia vocações para o sacerdócio, todos disseram que queriam ir para o seminário. Todos, menos eu. Nessa altura já sabia que o seminário e a igreja não eram bem aquilo que víamos no Padre H1. O meu irmão, que terá sido apanhado por essa ilusão, deixou o seminário com tanta pressa que chegou a casa uns meses antes de ter chegado a mala de viagem. Depois veio para a freguesia o Padre H2, e tudo passou a ser diferente. Recentemente, no discurso que se seguiu a umas distinções honoríficas feitas por um órgão da freguesia a várias pessoas e instituições, o Padre H2, depois de receber a medalha com que foi agraciado, no discurso da ocasião, referiu que foi o fundador do agrupamento de escuteiros na paróquia (e, efectivamente, tendo-lhe sido apresentado o projecto de criação desse agrupamento, ele fez o que um pároco tinha de fazer para que o mesmo se pudesse concretizar sob a égide do CNE). Todavia, não pude deixar de me questionar se, perante a atribuição daquela medalha ao Padre H2, e por uma questão de justiça, esse órgão da freguesia não deveria colocar à disposição de todos os habitantes da freguesia uma medalha por cada período temporal que ali tivessem passado equivalente ao que o Padre H2 esteve na mesma freguesia. Depois, questionei-me sobre as razões porque nunca acabámos com as distinções alegadamente honoríficas. Se até acabaram com o “quadro de honra” nas escolas, apesar de o critério para os alunos nele figurarem ser claro e objectivo (embora a “linha de partida” não fosse a mesma para todos), porque é que nunca terão acabado com as alegadas distinções honoríficas deixadas ao abandono de conceitos indeterminados (v.g., serviços relevantes e excepcionais; contributo no campo social, humanitário, cultural, económico, desportivo) e ao arbítrio de quem decide do preenchimento desses conceitos? Do ponto de vista humano, o direito que alguns dos órgãos do poder político têm de atribuir distinções honoríficas suscita-me as maiores reservas. É que, por cada ser que é agraciado por esses órgãos, muitos outros serão (ou, pelo menos, se sentirão) “desagraciados”. Será justo e correcto agraciar alguns à custa de todos? Parece-me que não.
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