Creio que muitos dos contratados que, na semana passada, viram cessar o seu contrato de trabalho em funções públicas, vão receber de subsídio de desemprego muito mais do que em qualquer emprego que não seja em funções públicas. E porquê? Porque o vencimento deles não foi ditado por regras de mercado, mas sim por referência aos funcionários com vínculo à função pública.
Poucos meses depois de eu ter começado a trabalhar, ouvi do Prof. Doutor Baptista Machado a seguinte frase, que nunca mais esqueci: “A democracia é um regime cobarde: dá razão, não a quem a tem mas a quem luta por ela.” Estávamos em meados de 1989, e essa frase foi dita a propósito de explicar a razão pela qual os professores universitários ganhavam pouco. Mas, passados alguns anos, tudo começou a mudar e, no presente, os professores em Portugal têm vencimentos equiparados aos seus colegas finlandeses, conforme acabo de ler num artigo publicado na edição de hoje da revista “Notícias Magazine”. Quem diz os professores, diz muitos quadros médios e superiores da administração pública.
Mas será que os contratados para funções públicas que agora foram despedidos não vão fazer falta? Vão, e muita. Então porque é que o Estado fez cessar os respectivos contratos? Porque não tem dinheiro para lhes pagar os vencimentos. E porque é que não tem? Designadamente, porque os vencimentos dos quadros médios e superiores que o Estado não pode despedir são superiores aos que o mesmo Estado pode pagar. Mas porque é que isso acontece? Porque os referidos quadros médios e superiores tiveram quem lutasse pelos seus interesses, a ponto de, apesar do estado a que chegámos, apresentarem uma proposta de aumento de vencimentos de 4%! Como se resolve o problema? Designadamente, diminuindo os vencimentos desses funcionários. Dessa forma, o Estado talvez já conseguisse pagar os vencimentos dos funcionários de que necessita. É ou não é verdade? Mas, vistas bem as coisas, para um governante é bem mais fácil privatizar as funções que agora são públicas, e, dessa forma, remeter o problema da redução de vencimentos para os privados. Acho que vai ser adoptada uma solução mitigada, e muito rapidamente. Vale uma aposta?
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