sexta-feira, 24 de maio de 2013

"Caldo bem encouvado”

Naquela manhã de Maio de 1961, o meu irmão, que tinha dez anos de idade, estava a demorar mais do que era costume a comer o café migado com broa (nesse tempo, o trigo era só para os dias de festa, ou então para os mais ricos), antes de ir para a escola. Pelo menos era isso que parecia à minha mãe, a ponto de ela lhe dizer: “se soubesses como eu estou…”.
Ele não fez caso do lamento, e lá foi para a escola. A meio da manhã alguém veio dizer-lhe que a mãe mandara recado para ele não ir a casa almoçar, e duas fatias de broa para o almoço. Chegada a hora do almoço, comeu as duas fatias de broa e depois ocupou o resto do tempo a brincar no recreio.
Quando saiu da escola e chegou a casa, quem lhe abriu a porta foi a Comadre Fonseca, uma estimada e prestável Senhora que assistia a mulheres nos partos e nas mais lidas de casa, enquanto elas convalesciam. “Anda cá que já aqui tens um irmãozinho”, disse-lhe ela, enquanto o encaminhava até ao berço onde eu dormia as primeiras horas de vida. Porque nessa altura o povo acreditava que quando uma mulher dava à luz tinha a cova aberta durante oito dias, as mulheres que tinham pessoas amigas como a Comadre Fonseca, corriam menos esse risco. Matava-se uma galinha, e, comida a canja que se fazia com a carne e depois essa mesma carne, acreditava-se que tudo correria bem nesses oito dias, tempo em que a Comadre Fonseca ficou a governar com esmero a nossa casa. Que conste, teve apenas um pedido muito especial do meu irmão: “Comadre, faça o caldo bem encouvado, que é assim que eu gosto dele”.

4 comentários: