Naquela manhã de Maio de 1961, o meu irmão, que tinha dez anos de
idade, estava a demorar mais do que era costume a comer o café migado com broa
(nesse tempo, o trigo era só para os dias de festa, ou então para os mais ricos),
antes de ir para a escola. Pelo menos era isso que parecia à minha mãe, a ponto
de ela lhe dizer: “se soubesses como eu estou…”.
Ele não fez caso do lamento, e lá foi para a escola. A meio da manhã
alguém veio dizer-lhe que a mãe mandara recado para ele não ir a casa almoçar,
e duas fatias de broa para o almoço. Chegada a hora do almoço, comeu as duas
fatias de broa e depois ocupou o resto do tempo a brincar no recreio.
Quando saiu da escola e chegou a casa, quem lhe abriu a porta foi a
Comadre Fonseca, uma estimada e prestável Senhora que assistia a mulheres nos
partos e nas mais lidas de casa, enquanto elas convalesciam. “Anda cá que já
aqui tens um irmãozinho”, disse-lhe ela, enquanto o encaminhava até ao berço
onde eu dormia as primeiras horas de vida. Porque nessa altura o povo acreditava
que quando uma mulher dava à luz tinha a cova aberta durante oito dias, as
mulheres que tinham pessoas amigas como a Comadre Fonseca, corriam menos esse risco.
Matava-se uma galinha, e, comida a canja que se fazia com a carne e depois essa
mesma carne, acreditava-se que tudo correria bem nesses oito dias, tempo em que
a Comadre Fonseca ficou a governar com esmero a nossa casa. Que conste, teve apenas
um pedido muito especial do meu irmão: “Comadre, faça o caldo bem encouvado,
que é assim que eu gosto dele”.
A "cova" estava aberta por 30 dias e não oito...
ResponderEliminarBela historia!Parabéns!!
ResponderEliminarVoltei a ler. E voltei a gostar!
ResponderEliminarAmei
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