terça-feira, 11 de maio de 2010

Zé Fernando, um Hércules de verdade


A poucos metros da casa onde eu morava, encontrava-se estabelecido o café mais moderno de US, o “Café Estrela”. Tinha mesas e cadeiras às cores. E que bonitas que elas eram, mesmo aos olhos de quem, como eu, só soube que era daltónico quando lho disseram nas sortes.
No Verão, era nesse café que paravam os estudantes, que, nessa altura, eram espécimes raros por aquelas bandas. A clientela do café sentava-se onde calhava. No entanto, os locais preferidos eram as soleiras das portas do café e das casas que o ladeavam. Estava lá mais fresco e o assento era confortável. Numa noite de bastante calor, vindo não sei de onde, o Hércules passou por ali. Como muitas vezes são mais as “vozes que as nozes”, todos queriam saber se realmente ele tinha a força que se dizia. Para esclarecer tal questão, tendo o Hércules ali ao pé, logo uns quantos quiseram medir forças com ele. Esse medir de forças consistia em, a partir do meio da estrada, os adversários se empurrarem mutuamente até que um, o perdedor, pisasse a berma da estrada que ficava nas suas costas. O primeiro adversário que defrontou o Hércules, num ápice ficou com as costas coladas ao muro que estava a cerca de seis metros do sítio de onde tinha partido. Sucederam-se-lhe mais uns 10 candidatos. Vendo que não tinha adversários à altura, o Hércules resolveu alterar as regras do jogo. Ele colocar-se-ia a um palmo da berma, e ganhava quem o fizesse recuar esse palmo. Mesmo assim, ninguém o conseguia vencer. O sentido do jogo do empurra era só um: o que ficava nas costas do adversário do Hércules. Perante isto, o Hércules disse que o melhor seria medir forças com dois adversários em simultâneo. Nem assim o resultado do jogo se alterou, embora tivesse passado a durar um pouco mais. Todos ficaram convencidos da invencibilidade do Hércules.
Uns tempos mais tarde, vi o Hércules a regressar da Cabrieira, com toda a indumentária dos pastores daquelas bandas. Pensei que trazia uma ovelha castanha atada a cada perna. Explicaram-me então que aquilo que eu pensava serem ovelhas, eram assafões feitos com pele de ovelha. Os passos do Hércules eram tão vigorosos que até faziam tremer o terroeiro (monte mais alto da parte da Serra de Estrela que se avista de US, e que fica a 30 minutos da Torre, a pé e a direito, mais ou menos…). Tempos depois, a minha mãe lá conseguiu que eu entrasse para a Escola Primária. Fiquei na penúltima carteira, mesmo à frente da dos veteraníssimos da 1ª Classe. Os veteranos seriam mais de metade dos 40 alunos dessa 1ª Classe (todos a cargo de uma única Senhora Professora, que ainda tinha de preparar um outro aluno para o exame da 4ª Classe). Quando um dia a Senhora Professora falou, ainda que ao de leve, nas façanhas do Hércules, eu e alguns dos que frequentavam, pela primeira vez, a 1ª Classe, ficámos todos contentes, por pensarmos que ela nos estava a falar do Hércules que nós conhecíamos. Porém, quando a Senhora Professora nos disse que aquele que alguns (ignorantes) pensavam que era o Hércules era, na verdade, o Zé Fernando, fiquei pior do que a Saphou quando lhe dá a moléstia. Fosse como fosse, não fiquei convencido de que o Hércules de que a Senhora Professora falava tivesse mais força do que o Zé Fernando.
Aqui fica uma fotografia do Zé Fernando, um Hércules de verdade, tirada pelo Sr. Silvestre Gaudêncio (moleiro, agricultor, operário, sindicalista, poeta e escritor de US, nascido em Março de 1926 e falecido em Setembro de 2008) e por ele publicada no livro da sua autoria, intitulado “Unhais da Serra, Apontamentos Monográficos”, 2007.

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