Um queixou-se do valor das reformas. O outro disse que morava onde morava, pois era o que as suas economias lhe permitiam. Alguns partidos da esquerda sempre pautaram o seu discurso pelo registo das dificuldades económicas. Mas, agora, até alguns políticos de partidos de direita invocam dificuldades económicas, e mesmo com algum regozijo!
Na altura em que cheguei a Coimbra (poucos anos depois do PREC) para estudar, o critério fundamental para se entrar em algumas repúblicas era o de se ter dificuldades económicas. Como quase todos tínhamos, a entrada era difícil. Lembro-me de que, quando fui seleccionado para o “Spreit-ó-Furo”, os candidatos eram 4, e todos com dificuldades económicas. Como o recurso a esse critério (das dificuldades económicas) dava empate, acabei por ser escolhido por ser o único caloiro. Perante a minha selecção, o candidato mais velho, que já era finalista e, para sobreviver, tinha de trabalhar (nas cantinas), disse aos repúblicos responsáveis pela escolha: “Vocês são uns insensíveis. Não sabem o que custa, com a minha idade, ter de me sujeitar a isto”. Naquela altura, mesmo entre os estudantes, o que não faltava era quem tivesse dificuldades económicas. Um estudante ter um carro era um caso anómalo. Mesmo os professores, só depois de alguns anos de serviço é que conseguiam comprar carro (e quantas vezes com recurso ao crédito). Recordo-me que, nas provas de doutoramento de um assistente que dava aulas há mais de 15 anos, o seu orientador ter referido o seguinte: “Este, que perante nós presta provas, chegou a esta casa sem nada, mas agora até já tem carro!”.
Posto isto, e passando para o discurso das alegadas dificuldades económicas de alguns políticos, dou comigo a concluir que, em condições de igualdade, preferia ser governado por pessoas ricas, ou, de preferência, muito ricas, desde que esse enriquecimento tivesse sido conseguido honestamente, do que por pessoas com dificuldades económicas. Por outras palavras, preferia que os nossos governantes já fossem ricos antes de irem para o governo, e não apenas depois de estarem no governo ou de terem dele saído.
Em alguns sistemas políticos liberais vigentes nos Séculos XVIII e XIX, reservava-se o direito de votar e o de ser eleito a uma classe de possidentes. Procurava-se, dessa forma, evitar que chegassem à governação dos estados pessoas que, por não serem abastadas, vissem a realidade distorcida pelos seus interesses mesquinhos e egoísticos. Por outras palavras, procurava-se evitar que os governantes, em vez de governarem, se governassem.
Contra esta teoria, um professor (aquele que nos ensinava os sistemas económicos da URSS – sovkhozes e kolkhozes – e de outros países em que considerava vigorarem “democracias populares”) dizia que a grande propriedade não se detinha perante a pequena, e que a sua tendência era para a abocanhar. Ou seja, por mais ricos que fossem, os ricos quereriam sempre ser mais ricos.
No entanto, não posso deixar de sentir que, se quem me governa for um rico, existe alguma possibilidade de, com a sua governação, também me tornar rico. Já se for governado por alguém com dificuldades económicas, não posso deixar de pensar que se nem a sua economia doméstica conseguiu governar, como é que vai conseguir governar o país?!
Por tudo isso, passando do abstracto para o concreto, é com todo o gosto que vejo chegar ao governo ministros e secretários de estado que, antes de assumirem funções governativas, já eram ricos. Dão-me algum conforto, embora não descure os ditames da referida teoria anti-liberal.
Assim, fico preocupado quando quem exerce cargos políticos se lamenta de alegadas dificuldades económicas. Preferia antes que, no exercício desse cargo, actuasse como se tivesse dificuldades económicas. Por exemplo, que não se fizesse transportar em carros com um valor de custo superior a €50.000,00, que não gastasse mais de €15,00 num almoço, que não tivesse motoristas cujo vencimento fosse superior a €1.000,00, que só utilizasse os bens do Estado que lhe fossem confiados para o exercício do cargo (fosse ele um simples computador ou um telemóvel) quando efectivamente estivesse ao serviço do Estado (e não, v.g., em férias e fins-de-semana), que não gastasse dinheiro em obras que nunca faria se estivesse a gastar o dinheiro que tivesse ganho como contrapartida do seu trabalho, que não gastasse dinheiro com viagens turísticas, enfim, que, em matéria de gastos, pautasse a sua actuação pela de um gestor criterioso e ordenado, ou, não sabendo o que isso é, pelo critério de um bom pai ou uma boa mãe de família. Se assim fosse, creio que nenhum organismo externo teria necessidade de vir dizer aos nossos governantes que estão a gastar de mais, nem alguns gastos, por tão absurdos que são, seriam, inclusive, alvo da zombaria por parte do Povo, que, com grande desespero, vê o dinheiro proveniente das receitas coactivas que paga (impostos e demais tributos, coimas, multas, etc.) mal administrado e mal gasto.
Concluo, pois, que me sentiria muito mais confortável governado por um rico que, no exercício das suas funções governativas, agisse como se tivesse dificuldades económicas, do que por quem, alegando dificuldades económicas, actuasse como se fosse rico.
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