segunda-feira, 24 de maio de 2010

Poderão os vencimentos dos funcionários públicos ser reduzidos?

António, operário reformado, e Belmiro, professor do ensino básico aposentado, tinham sido colegas na Escola Primária e, desde há dois meses, por mero acaso, encontraram-se num jardim da cidade onde viviam. Começaram os dois a ser parceiros no jogo da sueca que, todos os dias, depois de almoço, se jogava numa mesa desse jardim. António é um ouvinte assíduo da “SIC Notícias”, e Belmiro só gosta da imprensa escrita. Naquele dia soalheiro, a sorte não esteve do lado deles nos primeiros quatro jogos, não conseguiram “livrar” em nenhum deles. A notícia do dia era o aumento dos impostos, e as repercussões que esse aumento iria ter nas suas reformas. O mais preocupado era Belmiro. Segundo ele, no fim do ano iria pagar mais cerca de 1.500 euros. A conversa começou por aí, mas levou-os até datas distantes. A lembrava-se de que, em 1972, ganhava, como Chefe de Secção de uma fábrica de lanifícios, 3.000$00. Nessa altura, dizia Belmiro, eu ganhava só 2.100$00. Ao ouvir isto, António perguntou a Belmiro: então se tu ganhavas tão pouco, como é que, tendo eu 40 anos de descontos e tu 35, tens uma reforma de 1.500 euros e eu tenho uma reforma de 700? Belmiro respondeu-lhe que tinha tido mais descontos. António retorquiu que não podia ser, pois, até ao 25 de Abril, ganhara sempre muito mais do que Belmiro, e por isso descontara mais. B acabou por concordar, dizendo que, antes do 25 de Abril, ser funcionário público era “meio sustento”: – O facto de sermos servidores do Estado dava-nos uma distinção tão grande que nós nem pensávamos se o que ganhávamos era muito ou era pouco. Era aquilo, e pronto. E chegava para tudo!
– Mas olha que eu não acho que haja funcionários a mais – dizia António, – Seja qual for o serviço do Estado onde a gente vá, os funcionários não têm mãos a medir.
Bem, então a solução não pode passar por despedir funcionários, concordaram os dois.
– Mas, se não há dinheiro para pagar a tantos funcionários públicos, como vamos fazer? – Perguntava António.
– Só há uma solução – respondeu Belmiro: é reduzir os ordenados deles.
– Mas, se se reduzem os ordenados dos funcionários públicos, que são os que têm mais poder de compra em termos médios, como é que se vão safar os das lojas? – Perguntou António.
A pergunta ficou sem resposta. Chegara a altura de eles voltarem a jogo.
A grande questão é, pois, essa mesma: terão os vencimentos dos funcionários públicos de ser reduzidos? E depois, quem é que compra?

quinta-feira, 20 de maio de 2010

O gato da cântara

Era dia de festa numa pequena aldeia da Beira Baixa. O momento alto seria, à noite, a actuação do Rancho Folclórico da Casa do Povo de US. Quando chegámos, vimos um pau espetado na vertical, com uns 6 ou 7 metros de altura, forrado a giestas secas. No cimo desse pau, estava atada uma cântara de barro. Já todos tínhamos visto o jogo do pau ensebado com o brinde (geralmente um presunto ou um garrafão de vinho), e todos sabíamos como funcionava esse jogo. Agora assim, nunca tínhamos visto. Pergunta/resposta aqui e pergunta/resposta ali, apurámos que o propósito daquele artefacto era o seguinte: dentro da cântara estava um gato e, à meia-noite desse dia, seria deitado fogo às giestas que estavam na base do pau e que iriam queimando as outras até ao cimo do pau, onde estava a cântara. Quando as chamas queimassem a corda que a prendia ao pau, ela soltar-se-ia e cairia no chão. Ai cair o gato sairia dela e ficaria à solta. Quem o conseguisse apanhar ganhava 500 escudos.

Durante a tarde, foram sendo discutidas estratégias para apanhar o gato. Uma delas passava por atar os lenços das raparigas do rancho uns aos outros, para apanhar a cântara antes de a mesma se estilhaçar no chão. É que, se o gato saísse da cântara, haveria muito poucas hipóteses de o apanhar. A pressa do gato seria muita e o local estava rodeado de mato e de pinheiros.

Porém, por volta das 09-10 horas da noite, quando o rancho se preparava para actuar, começou uma tal sessão de pancadaria que a festa ficou mesmo por ali.

Nunca mais tive notícias do gato. Nem da festa!

sábado, 15 de maio de 2010

Casa Zé Bissa


Na casa Zé Bissa funcionava uma tasca (do tipo da do Coelho, em US), que já encerrou há alguns anos, e que foi local de reunião dos organizadores do III Congresso da Oposição Democrática. Na última vez que lá jantei, com o meu amigo João C., tive a alegria de ver, na televisão (que ainda era a preto e branco), o Vitória de Setúbal a eliminar o Benfica da Taça de Portugal.

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Os cidadãos poderosos e os outros

Os cidadãos poderosos não aceitam sujeitar-se à álea da decisão de um juiz. Por isso, elegem a feitura dos actos normativos como instrumento adequado e eficaz à prossecução dos seus interesses e à resolução dos seus problemas, deixando a justiça para os cidadãos comuns.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Sabedoria de livreiro

Viveríamos melhor numa sociedade governada por corruptos ou numa sociedade governada por pseudo-intelectuais? Pergunto ao dono e gestor da livraria. Por corruptos, responde, de chofre, o filho dele. Logo de seguida, o pai dá a explicação para a opção do filho, e de que ele também partilha: os corruptos dão alguma coisa a ganhar à gente, agora os pseudo-intelectuais, que vivem de subsídios do Estado, a única coisa que dão são ares de sabedoria a outros palermas como eles, e isso não enche a barriga de ninguém. Nem a deles!

terça-feira, 11 de maio de 2010

Zé Fernando, um Hércules de verdade


A poucos metros da casa onde eu morava, encontrava-se estabelecido o café mais moderno de US, o “Café Estrela”. Tinha mesas e cadeiras às cores. E que bonitas que elas eram, mesmo aos olhos de quem, como eu, só soube que era daltónico quando lho disseram nas sortes.
No Verão, era nesse café que paravam os estudantes, que, nessa altura, eram espécimes raros por aquelas bandas. A clientela do café sentava-se onde calhava. No entanto, os locais preferidos eram as soleiras das portas do café e das casas que o ladeavam. Estava lá mais fresco e o assento era confortável. Numa noite de bastante calor, vindo não sei de onde, o Hércules passou por ali. Como muitas vezes são mais as “vozes que as nozes”, todos queriam saber se realmente ele tinha a força que se dizia. Para esclarecer tal questão, tendo o Hércules ali ao pé, logo uns quantos quiseram medir forças com ele. Esse medir de forças consistia em, a partir do meio da estrada, os adversários se empurrarem mutuamente até que um, o perdedor, pisasse a berma da estrada que ficava nas suas costas. O primeiro adversário que defrontou o Hércules, num ápice ficou com as costas coladas ao muro que estava a cerca de seis metros do sítio de onde tinha partido. Sucederam-se-lhe mais uns 10 candidatos. Vendo que não tinha adversários à altura, o Hércules resolveu alterar as regras do jogo. Ele colocar-se-ia a um palmo da berma, e ganhava quem o fizesse recuar esse palmo. Mesmo assim, ninguém o conseguia vencer. O sentido do jogo do empurra era só um: o que ficava nas costas do adversário do Hércules. Perante isto, o Hércules disse que o melhor seria medir forças com dois adversários em simultâneo. Nem assim o resultado do jogo se alterou, embora tivesse passado a durar um pouco mais. Todos ficaram convencidos da invencibilidade do Hércules.
Uns tempos mais tarde, vi o Hércules a regressar da Cabrieira, com toda a indumentária dos pastores daquelas bandas. Pensei que trazia uma ovelha castanha atada a cada perna. Explicaram-me então que aquilo que eu pensava serem ovelhas, eram assafões feitos com pele de ovelha. Os passos do Hércules eram tão vigorosos que até faziam tremer o terroeiro (monte mais alto da parte da Serra de Estrela que se avista de US, e que fica a 30 minutos da Torre, a pé e a direito, mais ou menos…). Tempos depois, a minha mãe lá conseguiu que eu entrasse para a Escola Primária. Fiquei na penúltima carteira, mesmo à frente da dos veteraníssimos da 1ª Classe. Os veteranos seriam mais de metade dos 40 alunos dessa 1ª Classe (todos a cargo de uma única Senhora Professora, que ainda tinha de preparar um outro aluno para o exame da 4ª Classe). Quando um dia a Senhora Professora falou, ainda que ao de leve, nas façanhas do Hércules, eu e alguns dos que frequentavam, pela primeira vez, a 1ª Classe, ficámos todos contentes, por pensarmos que ela nos estava a falar do Hércules que nós conhecíamos. Porém, quando a Senhora Professora nos disse que aquele que alguns (ignorantes) pensavam que era o Hércules era, na verdade, o Zé Fernando, fiquei pior do que a Saphou quando lhe dá a moléstia. Fosse como fosse, não fiquei convencido de que o Hércules de que a Senhora Professora falava tivesse mais força do que o Zé Fernando.
Aqui fica uma fotografia do Zé Fernando, um Hércules de verdade, tirada pelo Sr. Silvestre Gaudêncio (moleiro, agricultor, operário, sindicalista, poeta e escritor de US, nascido em Março de 1926 e falecido em Setembro de 2008) e por ele publicada no livro da sua autoria, intitulado “Unhais da Serra, Apontamentos Monográficos”, 2007.

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Da alegada influência da beira, da neve e do granito na decisão de não desistir

Na edição do JN de 26/03/2010, vinha publicada uma notícia em que o Exm.º Senhor Procurador-Geral da República, em resposta à observação de um advogado que o aconselhava a demitir-se por não ter aberto um inquérito ao Exmº Senhor Primeiro Ministro, referiu o seguinte: “Quem nasce na beira, entre o granito e a neve, não desiste de nada”.

Só admito que o Exmº Senhor Procurador-Geral da República tenha feito essa referência em tom de gracejo. É que, de outro modo, tal referência não tem o mínimo sentido. Eu, os meus pais, os meus avós, os meus bisavós, os meus trisavós e até não sei quantas gerações, nascemos a duas horas, a pé e a subir, e a quarenta e cinco minutos a descer, do ponto mais alto da Serra da Estrela, e todos teremos desistido exactamente das mesmas coisas que os nascidos nos outros sítios.

Aliás, a ser como diz o Exmº Senhor Procurador-Geral da República, estaria descoberta a maneira de “fabricar” indivíduos que não desistissem de nada: bastaria que as mães os fossem ter, por exemplo, ao Centro Hospitalar da Cova da Beira, ao Hospital Distrital da Guarda ou o Hospital de Seia, e que, no dia e na terra do parto, existisse neve. Em qualquer das terras onde se localizam esses hospitais, o granito abunda. O mais difícil seria fazer coincidir o parto com a neve (desde que não fosse artificial). É que, mesmo em terras localizadas a cerca de mil metros de altitude (como é o caso da Guarda), só existe neve meia dúzia de dias por ano, se tanto, e, em Portugal, nos sítios onde mais neva não há hospitais.

Se o Exmº Senhor Procurador-Geral da República dissesse que “Quem nasce na beira, entre o granito e a neve” fala “achim”, seria muito mais exacto. Na verdade, uns “menoj” outros “maje”, nós, os beirões, falamos “achim”.