domingo, 22 de maio de 2011

A propósito das distinções honoríficas

A igreja da minha infância era fantástica. Tínhamos dela a imagem que o Padre H1 (que Deus o tenha em bom descanso) nos transmitia. Esse Padre era um engenheiro da alegria e da ajuda. O respeito, veneração e admiração que incutia na criançada era tanto que quando um dia, acompanhado de um outro padre que vivia num seminário próximo, foi à minha sala da 3ª Classe indagar se ali havia vocações para o sacerdócio, todos disseram que queriam ir para o seminário. Todos, menos eu. Nessa altura já sabia que o seminário e a igreja não eram bem aquilo que víamos no Padre H1. O meu irmão, que terá sido apanhado por essa ilusão, deixou o seminário com tanta pressa que chegou a casa uns meses antes de ter chegado a mala de viagem. Depois veio para a freguesia o Padre H2, e tudo passou a ser diferente. Recentemente, no discurso que se seguiu a umas distinções honoríficas feitas por um órgão da freguesia a várias pessoas e instituições, o Padre H2, depois de receber a medalha com que foi agraciado, no discurso da ocasião, referiu que foi o fundador do agrupamento de escuteiros na paróquia (e, efectivamente, tendo-lhe sido apresentado o projecto de criação desse agrupamento, ele fez o que um pároco tinha de fazer para que o mesmo se pudesse concretizar sob a égide do CNE). Todavia, não pude deixar de me questionar se, perante a atribuição daquela medalha ao Padre H2, e por uma questão de justiça, esse órgão da freguesia não deveria colocar à disposição de todos os habitantes da freguesia uma medalha por cada período temporal que ali tivessem passado equivalente ao que o Padre H2 esteve na mesma freguesia. Depois, questionei-me sobre as razões porque nunca acabámos com as distinções alegadamente honoríficas. Se até acabaram com o “quadro de honra” nas escolas, apesar de o critério para os alunos nele figurarem ser claro e objectivo (embora a “linha de partida” não fosse a mesma para todos), porque é que nunca terão acabado com as alegadas distinções honoríficas deixadas ao abandono de conceitos indeterminados (v.g., serviços relevantes e excepcionais; contributo no campo social, humanitário, cultural, económico, desportivo) e ao arbítrio de quem decide do preenchimento desses conceitos? Do ponto de vista humano, o direito que alguns dos órgãos do poder político têm de atribuir distinções honoríficas suscita-me as maiores reservas. É que, por cada ser que é agraciado por esses órgãos, muitos outros serão (ou, pelo menos, se sentirão) “desagraciados”. Será justo e correcto agraciar alguns à custa de todos? Parece-me que não.

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Do direito ao engano

Se alguém tem necessidade de ser enganado, deve ser-lhe prestado o serviço de que ele necessita. Tratando-se de uma necessidade com dignidade bastante para ter protecção legal, deveria ser regulado o estatuto do enganado e de quem lhe presta o serviço, o enganador. É que há por aí muitas pessoas que, apresentando-se como enganadores, não têm arte suficiente para prestarem um serviço de qualidade. Se a pessoa, ao fim de meia dúzia de anos, se apercebe de que foi enganada, o serviço foi mal prestado. Sendo prestado um serviço de qualidade, o enganado nunca pode descobrir que foi enganado. Em todo o caso, o serviço prestado (de enganação) deveria ter uma garantia mínima de 10 anos (será pouco?!). Esta ideia surgiu-me depois de, durante mais de duas horas, ouvir uma discussão entre um empresário português e um empresário espanhol. Um dizia, repetidamente: “no, me perdona, lo engañado soy yo”; e o outro retorquia, “mil desculpas, mas lo engañado soy yo”. Depois de tirar o “azimute” à questão, concluí que, nessa contenda, quem fosse reconhecido como enganado veria, dessa forma, satisfeita a sua necessidade. Nenhum deles queria mais nada do que isso: ser reconhecido como o enganado. Chamei então o português de parte, e disse-lhe: “reconheça que enganou o homem, e fica tudo resolvido”. Ele assim fez, e o espanhol, que não cabia em si de contente, fez questão de pagar o jantar em sala privativa de um restaurante (e que até meteu visitas surpresa!). No final, o português disse ao espanhol: “Estoy mui satisfeito de teres reconhecido que me enganaste. És um homem sério e honrado.” O espanhol percebeu que o português estava outra vez a reconhecer que o tinha "engañado" e o português estava convencido de que tinha sido o espanhol a reconhecer que o tinha enganado. Dois verdadeiros mestres na arte de enganar/"engañar".

sexta-feira, 29 de abril de 2011

O blog do Cosme

O Cosme é um génio, com conhecimentos muito profundos de engenharia (de minas), matemática, economia, finanças e informática. No entanto, é bastante modesto. Apesar de contactar com ele amiúde, só pela imprensa é que, numa determinada ocasião, soube que ele estava em oitavo lugar no ranking dos economistas nacionais. A notícia dizia que ele era o melhor classificado dos economistas do Norte. Mas isso eram outros tempos. Agora ele descobriu a blogosfera, e, se o que escreve no seu blog também contar para esse ranking, creio que, em Setembro próximo, já estará no primeiro lugar. Isto, se entretanto não for para o Governo.

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Ainda lhe faltou pedir o "Livro Amarelo" e a identificação dos presentes

A Minha Amiga Carla A. faria algo parecido. Mas, no final da "contenda," ainda teria pedido o "livro amarelo", bem como a identificação de todos os presentes. Depois... . Não, não quero dar mais ideias. Estamos em crise. Temos de ser complacentes.

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Fusão dos serviços da segurança social com os serviços do fisco: uma boa ideia.

Temos uma boa notícia vinda do auto-proclamado futuro Primeiro-Ministro: a fusão dos vários institutos da segurança social com os actuais serviços do fisco (suponho que, previamente, haverá uma fusão de todos aqueles serviços que, nos termos da lei, fazem parte da administração tributária). Alegadamente, essa ideia é agora também defendida em conferências por ex-governantes de governos socialistas. É pena que, enquanto estiveram no Governo, esses ex-governantes nunca tivessem manifestado a ideia que agora apresentam publicamente. Um desses ex-governantes, depois de ter tido muitos e bons “tachos” ainda antes de ter sido chamado para a exercer funções governativas, também dizia que o método forfetário (que, abreviadamente, se traduz na tributação do seguinte tipo: cada cadeira de barbeiro na Rua Faria Guimarães – que escolhi por ser onde o Funes corta o cabelo – vale X, se o barbeiro não quiser ser tributado por ela, tem de a arrancar; cada mesa de café na Rua de Camões – que escolhi por ter motas de primeira – vale Y, se o dono do restaurante não quiser ser tributado por essa mesa, tem de a eliminar) era o mais justo para os contribuintes com rendimentos que se enquadrassem na categoria B do IRS, bem como para as empresas com um volume de facturação anual até 500.000 euros. Esse ex-governante foi para o Governo e nunca mais o ouvi falar do assunto. Diz-se que era muito difícil a implementação desse sistema… Por essas e por muitas outras, creio que a fusão dos serviços do fisco com os da segurança social, apesar de ser uma boa ideia, não passará disso mesmo. Isto, a não ser que os nossos políticos sejam obrigados a implementá-la. Isso é que eu gostaria de ver!